Há um perfume que antecede a visão, um doce que se pressente antes de chegar ao alto do Incra 6. Em Brazlândia, o morango não é apenas um fruto; é o fio condutor de uma trama que une famílias japonesas, migrantes nordestinos, pioneiros e novos assentados. No dia 19 de março, às 18h30, essa história deixa o campo da oralidade para se tornar documento oficial com a entrega do Inventário Participativo da Festa do Morango.
O projeto, realizado pela Associação Cultural Jornada Literária do DF em parceria com o Iphan, é resultado de um mergulho profundo nas raízes da região. Sob a condução técnica do escritor João Bosco Bezerra Bonfim e a produção executiva de Marilda Bezerra, o inventário não buscou apenas catalogar dados, mas "ouvir o silêncio das caixas abertas" e a vibração do chão sob a lona da festa.
Um projeto que revela como a agricultura e outras dimensões sociais da cultura se fundem na construção da identidade brasiliense, indo além do Plano Piloto para encontrar a alma do DF nas suas regiões administrativas.
O Pulsar da Identidade
Diferentemente dos monumentos estáticos de pedra e cal, o Inventário Participativo de Brazlândia celebra o patrimônio imaterial: o saber das mãos que lidam com a terra, a força das mulheres da Associação Fujinkai e a resiliência dos "plantadores de água". Como resgata o coordenador técnico e autor da crônica que abre o inventário, João Bosco Bezerra Bonfim:
"Em agosto e setembro, nos dias de festa, sob o galpão da ARCAG e das lonas provisórias, circulam riquezas como um córrego que corre para além das vendas. É o valor das pessoas, suas artes culinárias e musicais, e outras histórias que se espalham como cheiro de morango recém-colhido no ar. O Inventário Participativo organiza a memória colhida de quem planta e faz a festa, como quem junta fios de uma mesma trança, para dar visibilidade aos saberes locais. São raízes que os participantes plantam, lembranças que afloram como brotos depois da chuva, memórias guardadas como sementes na palma da mão, capazes de alimentar projetos de educação patrimonial.”
Um Livro Feito de Vozes
O registro impresso, composto por 12 capítulos, funciona como uma "devolutiva pública". Ele percorre desde a trajetória épica do cinturão verde de Brasília até os desafios contemporâneos da sucessão geracional no campo. É um recurso pedagógico para as escolas e um escudo de salvaguarda para que a identidade de Brazlândia não se perca no tempo.
Como diz Leandro Grass, presidente do Iphan, na apresentação da obra, o livro direciona
“(...) um olhar atencioso para as histórias e memórias de comunidades que são pilares da nossa diversidade cultural, mas que nem sempre estiveram tão visíveis ou foram plenamente atendidas pelas políticas públicas de patrimônio. (...) busca valorizar a trajetória de quem construiu o DF e de quem, no cotidiano do campo, garante nossa segurança alimentar e fortalece a cultura nacional a partir da Capital da República.”
O evento de entrega na sede da Associação Rural Cultural Alexandre de Gusmão (ARCAG) será um encontro de gerações: netos puxando os avós pela mão, técnicos da EMATER-DF e autoridades do patrimônio cultural, todos na celebração do momento em que a experiência familiar se transforma em instrumento de continuidade.
SERVIÇO:
Evento: Cerimônia de Entrega do Inventário Participativo da Festa do Morango
Data: 19 de março de 2026, às 18h30
Local: Sede da ARCAG (Núcleo 06, BR 080, Km 13 – Brazlândia-DF)
Confirmação de presença: (61) 98192-0333



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